Tosqueiras Musicais

sexta-feira, 7 de abril de 2017

"TOSQUEIRA" 13: A hipótese do "terceiro observador" na física newtoniana: Um Dasein privilegiado?

Eric Ewans Mendes

Introdução:

Nessa “tosqueira” que apresentarei, tenho por objetivo tentar trabalhar a hipótese do “terceiro observador”, levantada pelo Professor Walter em uma aula de mestrado por meio de uma breve apresentação do conceito de espaço e tempo na física e na filosofia heideggeriana. Algumas perguntas são importantes: É possível uma aproximação do conceito heideggeriano de tempo e espaço com a física? Assim como ocorre variação de medição no tempo conceituado pela física, também ocorre no tempo conceituado por Heidegger? O que significa o “terceiro observador”? Essa hipótese possui um caráter teológico? 

1. Conceito de tempo e espaço na física e na filosofia heideggeriana:

Nesta primeira parte, apresentaremos os conceitos de espaço e de tempo, de maneira breve e simples, tanto na física quanto na filosofia heideggeriana. Vejamos primeiro na física:

Espaço – o conceito de espaço que mencionaremos aqui é este: Espaço é a localização de um determinado objeto em certo momento em relação a um determinado referencial. 

Tempo – no conceito clássico (newtoniano), o tempo é absoluto e uniforme, isto é, existe independentemente da matéria e do espaço; isto porque, em qualquer ocasião, transcorre da mesma forma, não sendo mais depressa ou devagar em função de qualquer fenômeno físico que ocorra. Em relação a dois eventos simultâneos, o tempo será absoluto para ambos os observadores inerciais. Contudo, vale lembrar que, dependendo das velocidades envolvidas no movimento, e das dimensões reais dos corpo que se movimentam, os conceitos de tempo podem variar. 

Agora veremos de maneira “tosca” como a filosofia heideggeriana define esses dois conceitos:

Espaço – O conceito de espaço heideggeriano é muito extenso para o discutirmos aqui. Por isso, tentaremos resumir esse conceito de uma maneira possivelmente satisfatória. Porém se tal definição ficou satisfatória ou não, deixarei ao julgamento dos leitores. Além do conceito de espaço, precisamos também entender o que é espacialidade. É lógico que, tratando-se de Heidegger, esses conceitos são de caráter existencial e tem como ponto de partida o ente que é conhecido como ser-o-aí ou Dasein.¹ Mas, o que significa ambos então para Heidegger? Espacialidade deve ser concebido a partir do Dasein, do seu modo-de-ser. Espacialidade é algo constitutivo do Dasein que possui duas características determinantes – o des-afastamento (que significa fazer desaparecer o que está afastado, revelando-o), e o direcionamento (é a abertura das regiões – é mais que “na direção para”, mas é também “na vizinhança de algo que está nessa direção” - empregadas no ver-ao-redor, indicando aonde algo pertence, para onde vai, de onde é trazido e onde é buscado em seu mundo-ambiente). O espaço só pode ser concebido, segundo Heidegger, com o fenômeno de mundo, e mundo é entendido como contexto referencial de significados e também o ambiente que o Dasein entende a si próprio. Isso é de caráter existencial. Um exemplo: Uma viagem de “meia hora” não são 30 minutos cronológicos, mas a duração, no sentido kairológico do afastar-se de um ponto e, no direcionamento, des-afastar-se de outro em uma certa região. Esse conceito pode ser usado nos estudos exatos e científicos? Heidegger diz que sim, no uso da espacialidade como temática nas tarefas de cálculo e medição como a agrimensura. 

Tempo – Sobre o tempo, Heidegger afirma que ele é o horizonte que leva à possibilidade de entendimento-do-ser de forma geral. Sabemos que assim como o espaço o tempo também é interpretado a partir da investigação do Dasein. Primeiramente que o conceito de tempo em Heidegger é kairológico (kairós) e não cronológico (chronos), pois o Dasein é um ente existencial e seu tempo é observado existencialmente; disto decorre que o Dasein possui a sua temporalidade (Zeitlichkeit). Em sua relação com o espaço, a temporalidade do Dasein é constituída com o des-afastamento e o direcionamento. Essa temporalidade é o sentido-de-cuidado (cuidado juntamente com ocupação e solicitude apresentam o comportamento do Dasein no mundo) em que a constituição do Dasein e sobre o seu fundamento que é possível esse ente ser ontologicamente o que é. Assim o Dasein, em seu sentido-de-ser, é temporalidade; e essa temporalidade aponta a sua cotidianidade que é um determinado como da existência que predomina durante o “seu tempo de vida”. Em outras palavras, é como o Dasein “vive no dia-a-dia.” No exemplo acima da viagem de 30 minutos, esses trinta minutos apresentam uma vivência cotidiana que se dá no deslocamento de um lugar para o outro. 

2. A ilustração dos dois aviões e dos observadores:

Passemos após as conceituações para a nossa ilustração. Tome por imagética dois aviões que saem de aeroportos diferentes de uma mesma cidade às 09h e nenhum minuto a mais. Levemos em conta que os destinos de cada aeronave possuem distâncias iguais ao seu ponto de origem. Também levemos em conta que os aviões são do mesmo modelo, e estão com a mesma quantidade de pessoas. E consideremos que os aviões estão em uma velocidade média de 801,01 km/h, o primeiro, e 600 km/h, o segundo avião, ambos voando em um céu limpo e sem problemas de turbulências. Vale lembrar que em cada aeroporto há um observador inercial que está com um relógio aguardando os respectivos aviões pousarem e, assim, marcam a que horas cada aeronave chegará ao seu destino. Para ilustrar isso melhor, usaremos o sistema de coordenadas cartesiano:


Conforme se mostra na ilustração acima, ambos os aviões saíram no mesmo horário de seus destinos e percorrem a mesma distância do seu ponto de saída até os observadores (600km). Porém é visível a pequena diferença de velocidade entre os dois. O primeiro avião que chegará ao observador A’ está 0,01km/h mais rápido que o outro avião. Quando o primeiro avião chega, o observador constata que ele chega aproximadamente às 09h44min. O segundo avião, por sua vez, chega um minuto após o primeiro e o observador B’ vê que o avião chega quando o seu relógio indica, de forma aproximada, 09h45min. Assim, conclui-se que os fenômenos não foram simultâneos, pois houve variação no tempo medido (chronológico) por cada observador, resultado das diferenças de velocidade dos aviões.

E pela perspectiva heideggeriana? Se interpretarmos os fenômenos conforme o pensamento de Heidegger, a resposta é: os dois fenômenos são simultâneos. Por quê? Porque para Heidegger, conforme definimos anteriormente, “tempo” ou melhor, “temporalidade” (Zeitlichkeit) no afastar dos aviões de seus respectivos pontos de partida e o des-afastar dos observadores direcionando-se aos pontos de chegada é de caráter existencial (kairológico – kairós), e não cronológico, como é visto na física. Em outras palavras, os dois fenômenos são simultâneos existencialmente, pois chegaram ao seu destino no momento oportuno, isto é, no momento em que deveriam chegar, não afetando os entes observadores, os entes passageiros e os pilotos de cada aeronave em todos os aspectos. Em outras palavras, a diferença de velocidade das aeronaves não gera variação no tempo existencial (kairológico). 

Porém, cada observador só tem conhecimento do ambiente em que se encontra: o observador “A” tem apenas a compreensão do que se passa em seu mundo-ambiente e, do mesmo modo, o observador “B” fenomenicamente só vê o que se passa em seu mundo-ambiente, o que mostra que nenhum observador conhece além do ambiente que lhe é próprio. Então, quem é que dá o veredito de que os eventos marcados acontecidos em “A” e “B” foram simultâneos ou não? Para responder a essa pergunta, surge a hipótese do “terceiro observador”. 

3. A hipótese do “terceiro observador” ou “Dasein privilegiado” 

Essa hipótese² é justamente fruto do questionamento feito no tópico anterior. Como os observadores “A” e “B” não podem dar o veredito sobre os fenômenos como simultâneos ou não, isso significa que se existe um veredito é porque há um observador externo, em uma posição privilegiada aos dois outros, o qual tem a possibilidade de concluir sobre os dois eventos se porventura ambos foram simultâneos ou não. Como poderíamos entender imageticamente a posição desse “terceiro observador”? Retomando ao gráfico do tópico anterior, pelo qual vimos os fenômenos observados por “A” e “B”, agora notaremos que haverá um acréscimo na imagética, que é a posição do “terceiro observador”. Vejamos o gráfico:


Veja que a posição do “terceiro observador” se encontra fora dos eixos do plano cartesiano, o que lhe permite ter uma visão superior dos fenômenos em relação aos observadores inerciais que se encontram inseridos nos ambientes dos eventos e, portanto, esta posição “de fora” lhe permite estudar e concluir se os fenômenos do pouso dos aviões foram simultâneos ou não. Isso indica que o “terceiro observador” é hipoteticamente necessário para que se conclua a observação dos fenômenos.

Mas quem é o “terceiro observador” na ciência? A própria ciência como linguagem, e esta linguagem se substancializa na figura do cientista que levanta as suas hipóteses e opera matematicamente para relacionar os observadores. E olhando pela perspectiva heideggeriana, quem seria o terceiro observador? 

Pelo pensamento de Heidegger, podemos inferir que tal observador é um Dasein-em-posição-privilegiada, isto é, ele transcendeu os outros dois observadores pela linguagem e, por essa mesma linguagem, des-oculta os mundos-ambientes dos dois observadores por meio do logos, interpretando a relação deles com os demais entes em seus respectivos mundos e como eles se comportam nesse mundo. 

4. Essa hipótese pode ser considerada também uma linguagem teológica?³

Conforme a pergunta do título, podemos entender que essa hipótese é, também assim como a temporalidade em Heidegger, uma linguagem teológica? A temporalidade em Heidegger é uma linguagem teológica retirada dos Evangelhos, pois tempo para Heidegger, como vimos, é kairós, e não chronos. A mensagem cristã é: que a salvação deve ser abraçada antes da morte que pode vir a qualquer momento. Paulo também utiliza kairós para tratar do tempo ou momento oportuno, um termo importante na analítica do Dasein de Heidegger. 

Na questão da hipótese do terceiro observador, podemos afirmar que sim, ela é uma linguagem teológica. Numa perspectiva judaico-cristã, podemos notar passagens que Deus age como o “terceiro observador”: em Gênesis na narrativa da Criação, quando após ter criado todo o universo e o homem, vê a sua Criação e a considera “muito boa” (Gn 1.31), no episódio da Torre de Babel também em Gênesis (Gn 10), ao ver o sofrimento do povo e acompanhar no cativeiro e o seu comportamento após a saída do Egito em Êxodo (Êx 3), nos Salmos onde Deus é aquele que se inclina para observar a sua criação (Sl 113.5, 6). Nos Evangelhos quando Jesus fala que se um irmão pecar contra ti leve duas ou três testemunhas após falar com ele a sós (Mt 18.15-20), na sua paixão na cruz (Mt 27, Mc 15, Lc 23, Jo 19), são alguns exemplos. 

É claro que isso pode ser aplicado em outras religiões e filosofias, como no Islamismo, no Budismo, no panteão grego dos deuses que observavam os comportamentos humanos e manifestavam-se próximos aos humanos assumindo outra fisionomia, na religião nórdica, etc. Mas, como cristão que sou, reforço a perspectiva cristã de Deus como o “terceiro observador” juntamente com o Filho e o Espírito Santo, isto é, a Santíssima Trindade. É claro que devemos levar em conta que se entendermos pela filosofia de Heidegger, Deus não é um Dasein privilegiado, pois Dasein são os entes que se encontram no mundo, e Deus transcende este mundo; e sua observação é infinitamente superior à do Dasein. Enquanto o Dasein domina a linguagem, Deus é o Senhor de todas as linguagens. Mas isso não impede de usarmos o pensamento heideggeriano. Podemos utilizá-lo. O que ocorrerá é a mudança dos termos em relação a Deus como “terceiro observador”: Deus não é um Dasein-em-posição-privilegiada, mas é o que eu chamaria de O-Divino-Criador-e-Observador-do-mundo. 

Conclusões:

Mediante o que apresentei nas seções anteriores dessa “tosqueira”, apresento as seguintes conclusões: primeiro, que existe sim a possibilidade de aproximação do pensamento heideggeriano com a física, pois o próprio Heidegger deixa claro que o seu conceito de tempo e espaço podem ser temáticas no exercício das disciplinas que costumam ser denominadas “exatas”. Em segundo lugar, vimos que os dois eventos apresentados na ilustração acima podem ser concluídos de maneiras diferentes. Se for pelo viés da física, os dois fenômenos não ocorreram simultaneamente, pois há entre variação na medição de tempo (sentido cronológico) devido as diferenças de velocidade das aeronaves. Já pela perspectiva de Heidegger, os eventos são simultâneos, pois não ocorre variação no tempo existencial, o que indica que dependendo da forma como se interpreta o fenômeno, o veredito pode mudar. Terceiro, quem determina o modo de interpretação e dá o veredito é o “terceiro observador”, que está em uma posição privilegiada à dos observadores inerciais. Esse “terceiro observador” é, à luz do pensamento de Heidegger, o que podemos chamar de Dasein-em-posição-privilegiada que transcende os outros dois observadores pela linguagem. Finalmente, atrevo-me a dizer que essa hipótese do “terceiro observador” é também de caráter teológico, pois há passagens bíblicas que dão a entender Deus como o “terceiro observador”. É evidente que no caso de Deus, como tal observador, a situação ontológica é diferente daquela que se percebe quando homem é o terceiro observador. Ele, Deus, é o Observador Supremo, o Senhor da linguagem. Portanto, com base no pensamento heideggeriano, infiro que Deus é O-Divino-Criador-e-Observador-do-mundo. 


NOTAS TOSCAS:

[1] É importante explicar que Dasein é a combinação feita por Heidegger (na sua obra mais importante Ser e Tempo) do artigo neutro das (o) + o verbo sein (ser), que pode ser traduzido como ser-o-aí. Heidegger em sua filosofia busca refazer a pergunta pelo sentido do ser, “o que é o ser?”, que, segundo ele, não foi respondida adequadamente pela tradição filosófica pelo fato da pergunta pelo sentido do ser não ter sido analisada de maneira mais profunda. Assim Heidegger afirma que é importante refazer essa pergunta e essa investigação parte de um ente que compreende a sua própria existência na história chamado de Dasein, isto é, o homem (ser humano) que compreende a sua existência não categoricamente como na tradição filosófica, mas que quando responde a pergunta: “Quem é você?” diz: “Sou filho(a) de João e Maria, nasci em Cuiabá, etc.” É a partir desse ente que é existência (aí Heidegger ser também chamado de Existencialista) Heidegger procura trabalhar a investigação acerca do ser. Na verdade a filosofia do Heidegger é uma analítica do Dasein e sua tarefa é em primeiro lugar ontológica. Márcia Schuback traduz Dasein como pre-sença, entendendo que como o Dasein é presença (parousia e ousia) em sua temporalidade e historicidade, ela optou por essa tradução. Porém, concordo com Castilho em partes (já que aparece em sua tradução de Ser e Tempo - ser-aí), prefiro usar o termo no alemão. E por que Heidegger não usa o termo homem? Porque, segundo ele, esse termo está carregado de categorizações da tradição, ocultando assim o ser desse ente. Heidegger não despreza o termo (tanto é que ele aparece em Ser e Tempo e em outras obras) mas, usa o Dasein por considerar mais adequado a sua tarefa ontológica. 

[2] Vale lembrar que essa hipótese surgiu durante a aula do mestrado “Tópicos Essenciais em Filosofia e Física” ministrada pelo Walter, na qual ele mencionou que, no exemplo dos observadores dentro do trem em movimento e outro fora, não são tais observadores que dão o veredito sobre o fenômeno, no que diz respeito às transformações de Lorentz que envolvem as medias feitas por tais observadores. Então, quem será? 

[3] Sugiro a releitura da tosqueira do Walter – 10: A palavra infinita que criou o universo.


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